sábado, 12 de março de 2011

Entrevista com o artista Ubaldo Rosa

Abaixo a entrevista feita pela nossa equipe com Ubaldo Rosa:



Gilcée/Fine-art - Viagem pro Sertão


Olá Ubaldo, antes de tudo gostaria de saber como você conheceu o cordel.
Olá, é um prazer falar com você e fazer parte do conjunto de artistas da Galeria. Bom, eu tive contato com a literatura de cordel quando tinha três anos. Minhas irmãs liam livretos todos os dias e eu pedia para que elas lessem para mim. Na verdade era um costume de minha família, onde todos se reuniam após o jantar para sessões de leitura. Como os livretos tinham um preço bem popular e temas divertidos, era mais comum este tipo de leitura do que de livros.

O que mais te impressionou na literatura de cordel?
Eu gostava muito dos contos, das paródias, me divertia muito com as histórias do folclore e sempre ficava pendurado no ombro da minha priminha Conjumina - sobre o nome dela precisamos de outra entrevista (risos) - para acompanhar as figuras. Conforme ela ia recitando eu ia acompanhando as imagens era como estar assistindo um desenho animado, já que não tínhamos televisão em casa. Mas acredito que o que mais me impressionou foi a maneira como as imagens casavam com o texto. Eu ia dormir com aqueles desenhos na imaginação, como se fossem reais.

E quando resolveu se aventurar nos desenhos?
Nessa época eu já rabiscava em sacos de pão, sobras de caderno das minhas irmãs e qualquer coisa onde eu achasse que pudesse desenhar. Certa vez rabisquei um siri na parede do corredor que ligava a cozinha à sala e fiquei proibido de chegar perto do lápis por um mês. Assim que meu castigo acabou minha primeira obra foi pegar um jornal que meu pai estava lendo e fazer um bigodinho na foto do Getúlio Vargas. Resultado: mais um mês sem lápis, fora as palmadas (risos).

Como se deu seu aprendizado em Xilogravura?
Como tínhamos este costume de ler cordel todos os dias, aos finais de semana reuníamos com outros familiares e amigos para as sessões de leitura. Num destes encontros meu tio Artur me apresentou um amigo seu que era cordelista e fazia suas próprias ilustrações em xilogravura. Fiquei tão entusiasmado que no dia seguinte estava na porta da oficina esperando para ver como eram “feitos meus sonhos”.

E com qual idade se deu este fato?
Eu tinha 8 anos.


Então começou a estudar com este artista?
Sim, na verdade eu implorei para que ele me deixasse ao menos ver o processo (risos). Eu ia todo dia depois da escola para a oficina dele, ficava lá esperando que ele me desse alguma tarefa. No começo eu varria o chão e juntava as lascas de madeira para jogar no lixo. Depois de dois meses ele me colocou em cima de um caixote e permitiu que eu ficasse olhando a bancada onde ele produzia as xilos. Lembro-me de um dia ter ficado com dores nas pernas, pois passei umas 6 horas em pé no caixote (risos).

E quando começou a aprender a técnica?
Quando completei 10 anos, com a autorização relutante de meus pais, me tornei oficialmente assistente. A partir daí passei a entender melhor o processo, mesmo com a pouca idade. No meu aniversário de 11 anos ganhei minha primeira matriz e minha primeira goiva. Para mim foi como ganhar um carro (risos), melhor até! Aprendi a desenhar, talhar a madeira e imprimir e com 15 anos fiz minha primeira ilustração para um livreto. Foi para um trabalho escolar com um grupo de amigos. Fizemos um livreto sobre o curupira e ganhamos nota 10. Eu nunca tinha passado dos 7 (risos).

Mesmo tendo a oportunidade de cursar artes plásticas você nunca deixou de produzir xilogravuras. Comente sobre isso, por favor.
Olha, eu tenho uma ligação quase fraternal com a xilogravura. É algo que faz parte de mim. Todos me conhecem pelo que produzo. Tem casos em que me chamam “o moço dos desenhos” ou “o moço do cordel”, tamanha minha identificação e dedicação à arte. Hoje produzo em outras técnicas como fine-art (giclée) e serigrafia, quando quero obter resultados diferentes. Mas a força da xilo ainda é muito grande e me considero um defensor desta técnica tão rica e tradicional.

A série Imagens e Viagens do Sertão foi produzida em qual técnica?
Inicialmente produzi na técnica de xilogravura, mas apareceu a oportunidade de editar a série em fine-art e serigrafia. O resultado é excelente e agradeço ao pessoal da Editora de Gravura que trabalhou na edição. Foram muito atenciosos, dedicados e comprometidos com a essência do meu trabalho.

Qual conselho você daria para os novos artistas?
Acredite e não desista nunca!


Serigrafia - Burrinho das 3 Oreias

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